terça-feira, 7 de junho de 2011

Cultura ou não, eis a questão

Como resposta ao objectivo pretendido do trabalho, esta ultima etapa caracterizou-se pelo estudo das diferentes culturas e das suas respectivas práticas. Daremos então a conhecer algumas situações, as quais, chamaram a nossa atenção pela incoerência, devido ao desrespeito pelos direitos humanos. Práticas essas, aceites e valorizadas, por estarem interiormente e culturalmente normalizadas para os respectivos indivíduos.
Apresenta-mos aqui, um dos vários exemplos, abrindo então o debate, não só desta prática, como de outras, do que pode ou não ser considerado uma forma de cultura:






O salto dos Vanuatu
Este ritual serve como um ritual de passagem e colheita das tribos da ilha de Vanuatu, no Oceano Pacifico. Os rapazes das tribos têm que subir em uma torre de 30 metros de altura com cipós amarrados nos tornozelos e saltar, a uma velocidade de cerca de 72 quilómetros por hora. A altura do salto varia bastante, aos 8 anos de idade é de alguns metros, e vai aumentando conforme idade, treinando assim as crianças desde cedo.
Os cipós são tratados e os saltos só se realizam nos meses de Maio e Junho que é quando o cipó se torna elástico, devido ao clima e ao tratamento. E têm de ser os próprios participantes a tecer estes cipós, que posteriormente serão atados aos seus tornozelos.
Os principais objectivos são a passagem da infância para a fase adulta, e depois, a colheita. No entanto outro dos objectivos é impressionar os deuses e as mulheres, mas para que os deuses fiquem suficientemente impressionados, e para que a terra se mantenha fértil, a cabeça do saltador tem de chegar o mais próximo possível do solo.
Quando o “mergulho” é feito correctamente, o rapaz deve encostar os ombros e a cabeça no chão. Entretanto, os cipós não são totalmente elásticos e um cálculo errado do comprimento da corda pode causar ferimentos sérios ou até mesmo a morte do rapaz no ritual, tendo em conta a tenra idade dos participantes.

Por Alexandra e Susana



Direitos Humanos e Diversidade Cultural, por Amartya Sen

Encontrando-se o nosso grupo na fase final deste projecto, desenvolvido ao longo do ano lectivo 2010/2011, é chegada a hora dos balanços finais acerca do trabalho desenvolvido.

Após muita investigação, quer teórica, quer de campo, chegou-se a uma encruzilhada, a qual ainda acarretou mais algumas questões por responder, relacionadas com a Cultura, Diversidade Cultural e Direitos Humanos.

Desta forma, no seguimento destas dúvidas finais com que nos deparámos, aqui iremos postar um texto, da autoria de Amartya Sen, grande economista indiano, que nos ajudou a ultrapassar estas barreiras finais:

" O conceito de direitos humanos é uma pedra angular da nossa humanidade. Tais direitos não são concedidos porque se é cidadão de um país ou se pertence a uma nação, mas pertencem por direito a toda a humanidade. Isso diferencia-os, em consequência, dos direitos criados constitucionalmente, garantidos a pessoas determinadas (por exemplo, os cidadãos americanos ou franceses). Desse modo, o direito de não ser torturado afirma-se independentemente do país de que se é cidadão e também do que o governo desse país — ou de outro — pretende. Um governo pode naturalmente contestar o direito legal de uma pessoa não ser torturada, mas isso não pode pôr em causa o que é considerado o direito humano de não ser torturado.

Discordâncias aparentes e contrastes culturais


O conceito de direitos humanos universais é, desse ponto de vista, uma ideia unificadora, algo que torna cada um de nós importante (pouco importa onde vivamos e a que país pertençamos), algo que podemos todos partilhar (apesar da diversidade dos sistemas jurídicos dos nossos respectivos países). E no entanto o tema dos direitos humanos frequentemente degenera em campo de batalha no qual se defrontam diversas crenças e reivindicações. Nos debates políticos, pode surgir como tema de diferenciação, mais que como idéia unitária. Tais oposições têm por vezes sido consideradas "choques de civilizações" ou "batalhas entre culturas". Por exemplo, diz-se com frequência que os países ocidentais reconhecem numerosos direitos humanos, especialmente os que estão ligados à liberdade pública, ao passo que os países asiáticos não o fazem. Muitos vêem nisso um importante factor de divisão. A tentação de pensar de acordo com tais esquemas regionais e culturais é muito forte no mundo contemporâneo. Os partidários e os adversários dos direitos humanos frequentemente utilizam esses argumentos culturais, baseados nas tradições e nas crenças existentes em determinada sociedade.
Existirão efectivamente diferenças irredutíveis entre as tradições culturais e as crenças políticas do mundo? Será esta divisão incontornável quando se trata de direitos humanos? É verdade que os porta-vozes dos governos de vários países asiáticos têm discutido a pertinência e o fundamento dos direitos humanos universais. Fazem-no frequentemente em nome de "valores asiáticos" específicos, que diferem das prioridades ocidentais. Insistem muitas vezes em afirmar que o apelo à aceitação universal dos direitos humanos reflecte a imposição dos valores ocidentais sobre as outras culturas. Como disse o ministro de Relações Exteriores de Singapura na conferência de Viena sobre os direitos humanos em 1993 (com total apoio dos porta-vozes oficiais de vários países asiáticos): "O reconhecimento universal do ideal dos direitos humanos pode ser nefasto se a universalidade é utilizada para contestar ou mascarar a realidade da diversidade." O ministro das Relações Exteriores da China também manifestou vivas reservas às concepções "ocidentais" dos direitos humanos. A filosofia confuciana, em particular, daria ênfase não aos direitos ou liberdades, mas ao li, quer dizer, à ordem e à disciplina. Mas existirá realmente esta "diversidade" entre a Ásia e os países ocidentais?
Uma certa tendência na Europa e na América estabelece às vezes implicitamente que é no Ocidente — e apenas no Ocidente — que os direitos humanos têm sido valorizados desde épocas antigas. Esta característica pretensamente única da civilização ocidental teria sido um conceito estranho no resto do mundo. Insistindo nas especificidades regionais e culturais, tais teorias ocidentais sobre a origem dos direitos humanos tendem a questionar a existência de direitos humanos universais nas sociedades não ocidentais. Sustentando que o valor atribuído à liberdade pessoal, à tolerância e aos direitos civis é uma contribuição própria da civilização ocidental, os partidários ocidentais desses direitos dão frequentemente argumentos aos críticos não ocidentais dos direitos humanos, pois pode-se considerar que o apoio a uma ideia pretensamente "estrangeira" é uma manifestação do imperialismo cultural imposto pelo Ocidente.

 

Diversidade nas tradições ocidentais e valores asiáticos


Que fundo de verdade se poderá atribuir a essa grande dicotomia cultural entre as civilizações ocidentais e não ocidentais a respeito da liberdade e dos direitos? Pretendo demonstrar que tudo isso é inexacto de um ponto de vista histórico. Na tentativa de interpretar a civilização ocidental como a base natural da liberdade individual e da democracia política, identificamos uma tendência para fazer extrapolações retrospectivas a partir do presente. Os valores que o século das Luzes na Europa e acontecimentos mais recentes banalizaram e difundiram são frequentemente considerados — de forma absolutamente arbitrária — uma parte da longa herança ocidental que se desenvolveu ao longo de milénios. O conceito dos direitos humanos universais no sentido amplo do Iluminismo, de direitos de todo ser humano, é na realidade uma ideia relativamente nova, tão difícil de encontrar no Ocidente como no Oriente antigo.
Todavia, outras ideias — como o valor da tolerância ou a importância da liberdade individual — foram apoiadas e defendidas por muito tempo, não raras vezes por uma pequena elite. Desse modo, no pensamento ocidental, os escritos de Aristóteles sobre a liberdade e o florescimento humano fornecem um bom material de base para as ideias contemporâneas dos direitos humanos. Podemos reconhecer esta importante filiação, sem ignorar a falta de universalidade das éticas subjacentes (a exclusão das mulheres e dos escravos por parte de Aristóteles é uma boa ilustração dessa ausência de universalidade). Podemos igualmente observar as contribuições positivas de certos elementos da filosofia ocidental para as noções modernas de direito humano, sem ignorar que outros filósofos ocidentais sustentaram outras teses. Assim, as preferências de Platão e de Santo Agostinho pela ordem e pela disciplina, mais que pela liberdade, não eram menos evidentes que as prioridades de Confúcio.
Se procurarmos tais filiações como pano de fundo do pensamento contemporâneo, podemos encontrar relações semelhantes nas culturas não ocidentais. Confúcio não é o único filósofo na Ásia, nem mesmo na China. As tradições intelectuais são muito variadas na Ásia, e muitos autores deram ênfase à importância da liberdade e da tolerância, chegando alguns a ver nisso a própria definição do ser humano. A linguagem da liberdade é muito importante, por exemplo, no budismo, que nasceu e se desenvolveu na Índia para em seguida se estender ao sudeste asiático e ao leste da Ásia, China, Japão, Coreia, Tailândia e Birmânia. Esta abordagem contrasta realmente com a ideia central de Confúcio: a disciplina.
O imperador indiano Asoka, que viveu na Índia no século III a.C. e comandou um império maior que o dos outros reis indianos, dos mongóis e mesmo dos britânicos, interessou-se pela ética pública e praticou uma política "esclarecida" depois de se horrorizar com a visão das carnificinas nas suas vitoriosas batalhas. Converteu-se ao budismo e contribuiu para transformá-lo numa religião mundial, enviando emissários, portadores da mensagem budista, ao exterior, tanto ao Oriente como ao Ocidente. Espalhou pelo território lousas nas quais estavam gravados os princípios de uma vida boa e os deveres do indivíduo e do estado. Essas inscrições conferem particular importância à tolerância face à diversidade: considera-se que "cada ser humano" tem direito a essa tolerância — que diz respeito às liberdades individuais e às maneiras de viver — por parte do estado e dos outros indivíduos. Muitos outros autores da antiguidade e da idade média (além de contemporâneos) em diferentes regiões da Ásia também se empenharam, segundo os mais variados registos, em favor da tolerância.
Não pretendo de forma alguma descartar a reivindicação de "particularidade" do Ocidente sustentando que as culturas asiáticas têm mais argumentos para reivindicar a prioridade do conceito dos direitos humanos. Defendo antes a ideia de que as culturas asiáticas desenvolvem tanto quanto as tradições ocidentais uma grande diversidade de posições. Tanto na Ásia quanto no Ocidente, alguns valorizaram a ordem e a disciplina, ao passo que outros se centraram na liberdade e na tolerância.
Destacam-se duas propostas. Primeiro, admitir que a ideia dos direitos humanos enquanto direitos de todo o ser humano, com um alcance universal absoluto e uma argumentação bem desenvolvida, é recente. Na sua forma precisa, não é uma ideia antiga nem no Ocidente nem em qualquer outra parte. Em seguida, nas tradições e pensamentos antigos, encontramos elementos (como a valorização da tolerância e da liberdade) muito próximos e absolutamente coerentes com a noção moderna de direitos humanos. Podemos encontrá-los nos escritos de certos pensadores asiáticos e nos de autores ocidentais. Podemos assim afirmar que não existe dicotomia cultural global, seja reivindicada pelos que acreditam na "particularidade" do Ocidente ou pelos partidários do autoritarismo asiático.

 

Variações no interior das civilizações islâmicas


Colocam-se frequentemente questões particulares a respeito da tradição islâmica. Em razão dos conflitos políticos contemporâneos, em particular no Médio Oriente, descreve-se muitas vezes a civilização islâmica como fundamentalmente intolerante e hostil à liberdade individual. No entanto, a diversidade e a diversidade inerentes a cada tradição também se encontram no islamismo. Os imperadores turcos foram não raras vezes bastante mais tolerantes que os seus contemporâneos europeus, e os mongóis na Índia (especialmente o imperador Akbar) chegaram a construir teorias sobre a necessidade de tolerar a diversidade. Os sábios árabes foram receptivos às ideias estrangeiras (a filosofia grega, as matemáticas indianas etc.) e por sua vez empenharam-se em difundir os frutos de seu trabalho intelectual por todo o velho mundo.
Um sábio judeu como Maimónides, no século XII, fugiu de uma Europa intolerante (onde nasceu) e da perseguição dos judeus em busca da segurança que lhe oferecia o Cairo e a protecção do sultão Saladin. Al-Biruni, o matemático iraniano que escreveu o primeiro livro geral sobre a Índia no início do século XI (além das suas traduções para o árabe de tratados indianos de matemática), foi um dos primeiros antropólogos do mundo. Observou — e insurgiu-se contra — o facto de que "a depreciação dos estrangeiros é comum a todas as nações, exercendo-a umas contra as outras", e dedicou grande parte de sua vida a favorecer a compreensão mútua e a tolerância. Existem naturalmente outros teóricos islâmicos e dirigentes que foram intolerantes e hostis aos direitos individuais, mas devemos levar em conta o alcance da diversidade no interior das tradições islâmicas. Não se pode pretender que a civilização islâmica se oponha de forma genérica à tolerância ou à liberdade individual.

 

Conflitos entre nações e críticas internas


Ao concentrar-me na diversidade no interior das culturas, não tenho como objectivo afirmar que actualmente os países e as culturas estão divididos igualmente, ao longo do mundo, quanto ao apoio que deve ser dado aos direitos humanos. Por causa da história particular do século das Luzes, do capitalismo de mercado e do estado social, os direitos humanos são muito mais celebrados na maioria das sociedades ocidentais que em muitos países da Ásia e da África. Mas trata-se de uma característica do mundo contemporâneo, e não de uma dicotomia antiga. É bastante importante não apresentar uma distinção moderna como uma oposição antiga, em virtude da qual a pretensa "essência" das culturas asiáticas ou o suposto "fundamento" dos costumes do Oriente se oporia a uma presumida "natureza" da civilização ocidental. Esta leitura sem fundamento da história não só é intelectualmente superficial como contribui para os factores de divisão no mundo em que vivemos. A grosseria gera a violência.
Os partidários dos direitos humanos, assim como os seus opositores, podem tirar proveito de um estudo e de uma compreensão mais profundos das diferentes culturas e civilizações, com suas respectivas diversidades e seus elementos heterogéneos, segundo os diferentes períodos da história. Tentar "vender" os direitos humanos como uma contribuição do Ocidente ao resto do mundo é não apenas historicamente superficial e culturalmente chauvinista como profundamente contraproducente. Isso provoca uma alienação artificial, que não é justificada pelos factos e não contribui para uma melhor compreensão entre uns e outros. As ideias fundamentais subjacentes aos direitos humanos surgiram sob uma forma ou outra em diferentes culturas. Constituem materiais sólidos e positivos para sustentar a história e a tradição de toda a grande civilização.
Mesmo no mundo contemporâneo, é importante ouvir as vozes dos dissidentes de cada sociedade, pois os ministros de Relações Exteriores, os representantes dos governos ou os chefes religiosos não têm o monopólio da interpretação dos valores ou das prioridades morais. A diversidade de opiniões em cada cultura — à qual nos referíamos acima — reflecte-se nas dissidências contemporâneas e na heterodoxia. Os dissidentes podem tomar-se líderes importantes (como Mahatma Gandi ou Nelson Mandela) ou continuar perseguidos e vulneráveis (como os militantes do movimento pró-democracia na China actual); no entanto, as suas opiniões e críticas não podem ser rejeitadas como "estrangeiras" às nações nas quais actuam. A necessidade de reconhecer a diversidade não se aplica apenas entre as nações e as culturas, mas igualmente no interior de cada nação e de cada cultura.

 

Para concluir…


O conceito de direitos humanos universais oferece bastantes atractivos para o senso comum e para a boa compreensão da nossa humanidade comum. Esta ideia unificadora tem sido objecto de críticas virulentas, por parte de separatistas culturais e de porta-vozes de governos autoritários. Esta ideia universalista tem sido frequentemente utilizada de forma manipuladora pelo chauvinismo intelectual ocidental, pretendendo arrogar-se como o lugar único da tolerância, da liberdade e dos direitos humanos em todos os tempos. Tais críticas e reivindicações são, não raras vezes, profundamente a-históricas. É verdade que há dissensões no mundo, mas as linhas de divergência não coincidem com as fronteiras nacionais, nem com a grande dicotomia entre o Oriente e o Ocidente. Isto aplica-se tanto às tradições do passado quanto às prioridades e às aspirações actuais.
No nosso empenho de levar em conta a diversidade, não devemos ignorar a heterogeneidade no interior de cada país ou cultura nem deixar de reconhecer o apoio dado pelos militantes aos direitos humanos, mesmo sob regimes autoritários. As divergências que observamos nos estudos históricos sobre a heterogeneidade das culturas repetem-se nas que constatamos no mundo contemporâneo. A diversidade no interior dos países pode estranhamente contribuir para unificar o mundo e torná-lo menos discordante. Os direitos humanos podem contribuir para este processo e também dele colher frutos. "

Retirado de "Direitos Humanos e Diferenças Culturais", in Democracia , org. por R. Darnton e O. Duhamel (Rio de Janeiro: Record, 2001, pp. 421-429). Adaptação de Desidério Murcho.



Por Helena

sábado, 2 de abril de 2011

Entrevista à associação "Nós"

No dia  14  de Março de 2011, o grupo de A.P fez uma entrevista a uma associação local denominada "Nós" que revela aspectos pertinentes ao tema do projecto "Culturas e Etnias".
                O presidente da associação, Silvano, esclareceu-nos o porquê do nome "Nós" ser eleito o da associação. O nome "Nós" pressupõe um conjunto não discriminado e a sua intenção é destruir barreiras actualmente associadas aos imigrantes, que são o grupo alvo de intervenção desta associação. Esta associação tem uma luta de cariz laboral e social, uma vez que a principal preocupação é defender os imigrantes quanto às condições de segurança no trabalho e também de ilegalidade e precariedade. O objectivo é acabar com a discriminação e exploração deste sector social.
                Apostam assim na valorização cultural que advém da "bagagem" de cada indivíduo, representante do seu país, que contribui para um desenvolvimento local e regional. Existe também um aspecto económico favorável associado aos imigrantes que é a sua contribuição para o desenvolvimento e enriquecimento.
                Portugal assiste a este fenómeno ainda com um considerável retrocesso, o que espelha as mentalidades em geral. Deste modo, a associação (ainda em fase de planificação) quer apostar em eventos culturais, em formações e debates, de forma a possibilitar a integração e a aceitação. Pretendem fazer parcerias com outras associações, de modo a tornar o seu trabalho mais completo e intenso. As parcerias são diversas e atingem grupos diferentes, tendo contacto também com a comunidade, visto que visa a integração: "não só temos abertura, como o dever de trabalhar em parceria".
                A associação foi fundada a 15 de Abril de 2010, e deste então que surge a preocupação com a exposição e interacção do público. O dia de África comemora-se a 15 de Maio, e neste dia informam-se os cidadãos e promove-se esta associação a nível local (mais precisamente em Beja). As actividades da associação pretendem envolver artistas de Beja nas demais àreas como o teatro, a música e a dança.
                 A associação não tem fins lucrativos e devido ao inicial número de sócios ainda não possui estatuto de IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Local). Alguns apoios começaram a surgir como o do Sindicato de Trabalhadores de Beja que facultou um espaço para a sede da associação, e até agora é o único apoio registado. Devido ao carácter não lucrativo, pretendem criar dinâmicas que tornem esta associação autosustentável.
                A divulgação da associação ainda não tem dimensão na internet (devido ao estado inicial em que se encontram) mas nos jornais, às vezes, saem artigos sobre esta associação.
                A associação "Nós" encara os obstáculos como "algo de bom", de forma a superá-los e evoluir. O primeiro obstáculo com que se depararam foi o espaço para a sede, mas já se revela ultrapassado. Os restantes são de índole financeiro e de receptividade ao tema em causa. Esta associação possibilita a colaboração de outras entidades, de várias formas, podendo até tornar-se sócios, e a associação mostra-se inteiramente disponível a todo o tipo de ajuda.
                Neste momento, o "Nós" encontra-se na fase de planificação, e uma das ideias é o investimento em estágios académicos.  Para breve irão organizar o evento que festejará o primeiro aniversário da instituição. A composição dos sócios abrange africanos,  brasileiros, cidadãos de Leste e também portugueses, porque o objectivo é ultrapassar o conceito de "emigrante" e as barreiras que enfrentam.
                Foi um bom encontro e uma contribuição positiva para o nosso trabalho, a associação mostrou-se agradecida e lisonjeada pelo nosso convite à sua participação na apresentação final. 


Por Alexandra, Beatriz, Helena, Rita e Susana

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Reflexão final sobre as teorias expostas

Após o estudo das teorias seleccionadas concluimos a existência de um ponto comum a todas: o homem é o motor da cultura, portanto é possível alterar circunstâncias menos aceitáveis em determinadas culturas. Este é o nosso ponto de partida e o que nos vai permitir desenvolver todo o projecto. Se nós, seres humanos, somos um fruto de desenvolvimento constante não podemos deixar que que o nosso legado cultural estagne, pois seria persistir no erro. Deste modo é necessário repensar alguns aspectos que hoje se revelam retrógados em relação à nossa realidade actual.

O conjunto de motivos que levou a que este progresso não se verificasse assentou numa série de instintos humanos relacionados com a supremacia do homem, com a vontade inata de agir consoante o egoísmo, a ignorãncia, o desrespeito, tendo como consequência a violação dos Direitos Humanos.

A segunda etapa do nosso trabalho incide sobre o trabalho de campo, ou seja, o contacto directo com opiniões, situações reais e experiências que ilustrem o nosso estudo. Continuaremos a demonstrar assiduamente neste blogue o decurso do nosso projecto.

Por Beatriz e Rita.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Excerto do livro "Culturas e organizações" de Geert Hofstede

" o objectivo(...) é ajudar a lidar com diferenças na forma de pensar, sentir e agir dos habitantes do nosso planeta. Demonstraremos que, apesar da enorme diversidade de mentes, podemos encontrar uma estrutura que possa servir de ponto de partida para uma compreensão mútua."

Por Beatriz

Excerto do livro "Teoria da cultura" de Manuel Antunes, esclarecimento da diferença entre cultura e civilização

" Cultura e civilização distinguem-se?

(...) partem do mesmo sujeito, que é o homem, ser social: porque se referem, embora sob aspectos diferentes, aos mesmos objectos- por exemplo, um disco e um livro: vistos pelo conteúdo, são objectos culturais; vistos pelo modo como foram realizados são objectos civilizacionais-; porque visam, finalmente, o bem do mesmo homem.
Distinguem-se, porque a cultura vai mais no sentido da "transcendência" e a civilização vai mais no sentido da "imanência"; porque a cultura é mais do domínio do "ser" e civilização mais do domínio do "ter"; porque cultura é mais "substantiva" ao homem e civilização é mais "adjectiva" ao mesmo homem.
De outro modo: cultura constitui o aspecto mais pessoal e criador da civilização, e civilização constitui o aspecto mais geral e técnico da cultura. "

Por Beatriz

domingo, 28 de novembro de 2010

Teoria da Cultura segundo a Ontognoseologia (Parte II)


Ao dizer que o valor fundamental é o da pessoa humana, esse valor dará sentido à existência dos outros valores, que se subdividem em:
- Verdadeiro e que diz respeito à ontognoseologia;
- O valor do Belo que está ligado às artes e à Estética;
- O valor do Útil, que diz respeito à Economia, Comércio, Agronomia e Indústria e da manutenção da vida;
- O valor do Bem que comporta as questões relativas à Ética, à conduta humana e a moral.

Os valores são constituintes dos bens culturais. A cultura possui assim bens culturais e tais bens, realizados e construídos pela espécie humana, são de ordem não natural. Constitui todo o tipo de ciência um bem cultural. As ciências da Natureza são um bem cultural assim como as ciências da cultura o são. Mas observamos diferenças entre uma ciência natural e uma ciência cultural. Na primeira a finalidade é explicar os fenómenos naturais e noutra os culturais. Nesse sentido teremos um modo relacional objectivo de formação de leis culturais totalmente diferentes da formação de uma lei natural. Quando realizamos uma ciência cultural realizamos algo sobre nós mesmos como tentativa de auto compreensão.
                No dever ser o homem supera o simples ser da ciência natural. No espírito encontramos a liberdade e a capacidade de síntese e uma constante transcendência para ale do dado imediato. Agir para o homem envolve muito mais do que uma sequência imediata de factos, mas sim uma previsão do futuro. Se o homem age é porque tudo já foi planeada na sua cabeça e uma acção é a actualização de uma possibilidade pensada. Segue-se que a conduta humana é imprevisível visto que é um elemento que depende de um entrelaçamento de valores e bens culturais. Assim, nas ciências humanas temos factos como nas ciências naturais e neles procuramos realizar um nexo causal, sendo que as leis estabelecem uma conexão de sentido, baseada num suporte axiológico. Tudo o que acontece na natureza está fora do nosso alcance e o seu sistema de interpretação é inconsistente. No caso das ciências humanas, estas pressupõem uma ordem social que se organiza segundo o mundo moral. Ou seja, as leis baseadas no sentido são leis de carácter compreensivo e normativo, utilizadas pelo direito e pela moral, que se forem desrespeitadas pelo indivíduo podem fazer com que este sofra sanções pelo seu desrespeito pela justiça (ligada ao valor do bem e da ética). As leis e normas de conduta que mantenham o bem devem respeitar tanto o indivíduo como pessoa quanto o grupo de indivíduos que pretende regular, numa compreensão histórico-social conjugada com a época.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Cultura numa perspectiva Antropológica (Parte II)

Então, após todas estas explicações, em que consiste ao certo o conceito de Cultura?
 Na perspectiva do antropólogo britânico Edward Tylor,(considerado o pai do conceito moderno de Cultura):
 
Cultura é “o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”.
In Primitive Culture (1871)

Há que referir que Tylor foi o primeiro a formular o conceito de cultura do ponto de vista antropológico, ainda em vigor. Na verdade, ele apenas formalizou uma ideia que vinha a crescer desde o Iluminismo. Já John Locke (filósofo britânico e fundador da ideologia liberal), em 1690, afirmava que a mente humana era “uma caixa vazia no nascimento, dotada de capacidade ilimitada de obter conhecimento”, conceito que hoje designamos por endoculturação (processo permanente de aprendizagem de uma cultura por um indivíduo).

Taylor enfatizou, portanto, a ideia da aprendizagem na sua definição de cultura:
o Homem é, por natureza, um animal “versátil” que, munindo-se de instrumentos como a Cultura, conseguiu compensar o seu contínuo processo de inacabamento, do ponto de vista biológico, com uma grande complexificação cerebral. Isto permitiu-lhe sobreviver através dos tempos, ainda que com um equipamento biológico relativamente simples.
Atentemos no seguinte exemplo:
Um esquimó que deseje morar num país tropical, adapta-se rapidamente; substitui o igloo e os seus grossos casacos por um apartamento refrigerado e roupas leves, enquanto o urso polar não pode adaptar-se fora do seu ambiente.
Logo, verifica-se que a Cultura surgiu da necessidade de adaptação do Homem aos diferentes ambientes. Em vez de nascer geneticamente predisposto para se adequar somente a um determinado local, como os restantes animais, o Homem recorre não só, mas também, a elementos epigenéticos. Por exemplo, a baleia perdeu os membros e os pêlos e adquiriu barbatanas para se adaptar ao meio marítimo. Enquanto a baleia teve que transformar-se ela mesma num “barco”, o homem utiliza um equipamento exterior ao corpo para navegar.
Além disso, a Cultura trata-se um processo acumulativo: o Homem recebe conhecimentos e experiências “acumulados” ao longo das gerações que o antecederam e, se estas informações forem adequada e criativamente manipuladas, permitirão inovações e invenções.
Assim, estas não são o resultado da acção isolada de um indivíduo, mas o esforço de toda uma comunidade.
Roger Keesing, antropólogo, no seu artigo Theories of Culture (1974), define Cultura de acordo com duas correntes:


 As teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo: culturas são padrões de comportamento socialmente transmitidos que servem para adaptar as comunidades humanas ao seu modo de vida (tecnologias, modo de organização económica, padrões de agrupamento social, organização política, crenças, práticas religiosas, etc.)
 

 As teorias idealistas da cultura são divididas em três abordagens:
     
A primeira considera cultura como sistema cognitivo ("consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro da sociedade").

A segunda abordagem considera cultura como sistemas estruturais ("um sistema simbólico que é a criação acumulativa da mente humana). O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito, arte, parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais.

A terceira abordagem considera cultura como sistemas simbólicos (é um sistema de símbolos e significados partilhados pelos membros dessa cultura que compreende regras sobre relações e modos de comportamento).
No fundo, a Cultura é uma lente através da qual o homem vê o mundo - pessoas de culturas diferentes usam lentes diferentes e, portanto, têm visões distintas da realidade.
Além disso, este facto tem como consequência a propensão para considerar o seu modo de vida como o mais correcto e o mais natural (etnocentrismo), depreciando o comportamento daqueles que agem fora dos padrões da sua comunidade.
Comportamentos etnocêntricos resultam, geralmente, em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes, onde as práticas de outros sistemas culturais são vistas como absurdas.
Mas ainda assim, o etnocentrismo é um “comportamento universal”, na medida em que é comum a crença de que a nossa própria sociedade é a mais correcta.
 
Em oposição ao etnocentrismo, surge a apatia. Em lugar do “prestar culto” dos valores da sua própria sociedade, num momento de crise os indivíduos abandonam a crença naquela Cultura e perdem a motivação que os mantém unidos.
Por exemplo, os africanos, quando foram trazidos como escravos para uma terra estranha, com costumes e línguas diferentes, perdiam a motivação de continuar vivos e muitos praticavam suicídio.
É importante frisar que, embora nenhum indivíduo conheça totalmente o seu sistema cultural, é necessário que o indivíduo tenha um mínimo de conhecimento da sua cultura para conviver com os outros membros da sociedade. Nenhum indivíduo é perfeitamente “socializado”, mas é nesta imperfeição que reside a grande força transformadora de um sistema cultural, que está em contínuo processo de mudança.

A mudança cultural subdivide-se em dois tipos: interna (resulta da dinâmica do próprio sistema cultural e, é lenta; porém, o ritmo pode ser alterado por eventos históricos, como uma catástrofe ou uma grande inovação tecnológica) e externa (é o resultado do contacto de um sistema cultural com outro; esta é mais rápida e brusca).
Em suma, o tempo é um elemento a ter em conta aquando da análise do conceito de Cultura e, da mesma forma que é importante para a Humanidade a compreensão das diferenças entre os povos de culturas diferentes, é necessário entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema, considerando factores como hereditariedade, espaço, tempo e, o mais substancial de todos, a capacidade de mudança.


Por Helena (Com base na obra Cultura, um conceito Antropológico, de Roque de Barros Laraia)

A Cultura numa perspectiva Antropológica (Parte I)

Desde a Antiguidade que, o ser humano, tem revelado a necessidade de encontrar uma explicação para as suas diferenças, a nível do comportamento e atitudes, tomando, portanto, como referência as diversidades genéticas e geográficas.



      Numa primeira abordagem, alguns estudos verificaram que:
1- As características biológicas não são determinantes das diferenças culturais: por exemplo, se uma criança brasileira for criada na França, ela crescerá como uma francesa, aprendendo a língua, os hábitos, crenças e valores dos franceses. Podemos citar, ainda, o facto de muitas actividades que são atribuídas às mulheres numa cultura são responsabilidade dos homens noutra.

2- O ambiente físico também não explica a diversidade cultural. Por exemplo, os lapões e os esquimós vivem em ambientes muito semelhantes – os lapões habitam o norte da Europa e os esquimós o norte da América. Era de se esperar que eles tivessem comportamentos semelhantes, mas os seus estilos de vida são bem diferentes.
 Os esquimós constroem os igloos amontoando blocos de gelo num formato de colmeia e forram a casa por dentro com peles de animais. Com a ajuda do fogo, eles conseguem manter o interior da casa aquecido. Quando muda de local, o esquimó abandona a casa levando apenas os seus pertences e constrói um novo igloo.
Já os lapões vivem em tendas de peles de rena. Quando desejam mudar-se, eles desmontam o acampamento, secam as peles e transportam tudo para o novo local. Além disso, enquanto os lapões se dedicam à criação de renas, os esquimós apenas caçam renas.

Outro exemplo são as tribos de índios que habitam uma mesma área florestal e têm modos de vida bem diferentes: algumas são amigáveis, enquanto outras são ferozes; algumas alimentam-se de vegetais e sementes, outras caçam; têm rituais diferentes, entre outros…
Verificando-se que a primeira abordagem não gerava soluções explicativas da diferença cultural, surge uma segunda abordagem que visa a interacção social como a verdadeira explanação do problema:

3- O comportamento dos indivíduos depende, então, de um conjunto de aprendizagens, cujo processo se designa por socialização. Pessoas de “raças” ou sexos diferentes têm comportamentos diferentes, não somente em função da predisposição genética ou do ambiente em que vivem, mas por terem recebido uma educação diferenciada; educação essa que tem as suas raízes numa colectividade, denominada Cultura.
Deste modo, conclui-se que é a Cultura que determina verdadeiramente a diferença de comportamento entre os homens. O Homem age de acordo com os seus padrões culturais, logo ele é o resultado do meio em que interage/socializa. Logo, se os padrões culturais divergem de sociedade para sociedade, a Cultura também varia.

Por Helena (Com base na obra Cultura, Um conceito Antropológico, de Roque Barros Laraia)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Continuação da Teoria do Culturalismo

Como lemos nos post anterior, o aspecto da transmissão cultural é um pilar muito importante nesta teoria que tem por premissa básica que uma determinada cultura impõe um determinado pensamento aos Homens nela inseridos.A cultura condiciona o comportamento psicológico do indivíduo, a sua maneira de pensar, a forma com percebe o que o rodeia e como extrai,organiza e assimila a informação daí proviniente.Neste sentido, foram significativos os trabalhos de Ruth Benedict, realizados
na década de 1930, sobre os índios pueblo do sudoeste dos Estados Unidos - os
quais, apesar de imersos num meio físico semelhante ao das etnias
circunvizinhas, raciocinavam de forma muito diferente diante de problemas
idênticos.
Margaret Mead analisou principalmente a importância da educação na formação
da personalidade adulta. Ralph Linton e Abram Kardiner, por sua vez, expuseram o
conceito de personalidade de base, que consistiria num mínimo psicológico comum
a todos os membros de uma sociedade.


" A análise da cultura realizada a partir da noção de pattern, de "configuração", de "perfil", foi por eles sistematizada(...), cujos trabalhos vieram mostrar a descontinuidade entre as culturas e a relatividade das formas culturais"

                                     Valade, Bernard (1995). "Cultura". in Tratado de Sociologia




Os homens não nascem com cultura, sofrem um processo de endoculturação ou inculturação- ajustamento das nossas formas de comportamento inato ou biologicamente determinado às práticas culturais estabelecidas no nosso grupo.
Ralph Linton aprofundou a relação estreita que existe entre a personalidade de um indivíduo e a cultura da sociedade a que pertence. Como escreve em 1936: " A cultura (...) só existe no espírito dos indivíduos que formam uma sociedade. As características que possui advêm-lhe das personalidades desses individuos e da interacção dessas personalidades. Inversamente, a personalidade de cada indivíduo é elaborada e funciona em permanente associação com a cultura da sociedade"                     Valade, Bernard (1995). "Cultura". in Tratado de Sociologia



Para a escola culturista, a cultura é constituída por um sistema de comportamentos aprendidos e transmitidos numa determinada sociedade que modela a personalidade dos indivíduos.
Ao mesmo tempo, é também formada pelo resultado material (os objectos manifacturados) desses comportamentos. Nesta concepção de cultura, um objecto só tem valor se tiver um sentido, sendo a cultura um conceito abstracto. A realidade concreta não é senão aquela dos comportamentos dos indivíduos que são por eles apreendidos.


Por Beatriz





Teoria do Culturalismo - Margaret Mead e a Transmissão cultural

A Teoria do Culturalismo surge com Ruth Benedict, Ralph Linton, Abram Kardiner e Margaret Mead (1901-1978), cujo trabalho é relevante nesta introdução à teoria. Margaret Mead aprofunda o seu trabalho principalmente quando decide orientar as suas investigações para a maneira como um indivíduo recebe a cultura e  as consequências que isso acarreta na formação da sua personalidade.
É portanto,o processo de transmissão cultural e de socialização da personalidade que Margaret Mead decide colocar no centro das suas reflecções e dos seus trabalhos.O seu objectivo seria analisar diferentes modelos de educação tentando compreender o fenómeno da inscrição da cultura no indivíduo e explicar aspectos dominantes da personalidade devidos ao mesmo processo de inscrição. A sua investigação conduziu-a à Oceânia, a três sociedades na Nova Guiné ( os Arapesh, os Mundugomor eos Cambuli). Através dos casos estudados mostra que as pretensas personalidades masculina e feminina que se têm por universais, porque consideradas de origem biológica, não existem conforme as imaginamos em todas as sociedades. Mais ainda, certas sociedades têm um sistema cultural de educação que não se consagra a opor os rapazes e as raparigas no plano das personalidade.
Entre os Arapesh, tudo parece organizado na pequena infância para fazer com que o futuro Arapesh, homem ou mulher, seja um ser delicado, sensível,prestável, enquanto que, entre os Mundugomor , a consequência do sistema de educação é antes suscitar a rivalidade, e até mesmo a agressividade, tanto que entre os homens como entre as mulheres, e ainda nos dois sexos.
Na primeira sociedade, as crianças são acarinhadas sem distinção de sexo; na segunda, são duramente educadas, porque são filhos não desejados, sejam rapazes ou raparigas.
As duas sociedades produzem, através dos seus métodos culturais, dois tipos de personalidade completamente opostos. Em contrapartida, têm um ponto em comum: não distinguindo entre "psicologia feminina" e "psicologia masculina", não engendram personalidade especificamente masculina ou femenina. Segundo a concepção habitual na nossa sociedade, o Arapesh, homem ou mulher, parece-nos dotado de uma personalidade predominantemente feminina, e o ou a Mundugomor de uma personalidade predominantemente masculina, ainda que apresentar factos nestes termos não passe de um contra-senso.
Inversamente, os Chambuli, o terceiro grupo, pensam como nós que homens e mulheres são profundamente diferentes na sua psicologia. Mas, ao contrário de nós, estão persuadidos de que a mulher é, por " natureza" , empreendedora, dinâmica, solidária com os membros do seu sexo, extrovertida; e que o homem è, em contrapartida, sensível, menos seguro de si, muito preocupado com a sua aparência, tendente a invejar os seus semelhantes. É que, entre os Chambuli, são as mulheres que detêm o poder económico e que asseguram o essencial da subsistência do grupo, ao passo que os homens se consagram a sobretudo a actividades cerimoniais e estéticas, que os põem muitas vezes em competição uns com os outros.
Assim, a personalidade individual não se explica por caracteres biológicos ( por exemplo e neste caso, o sexo), mas pelo "modelo" cultural particular de uma dada sociedade que determina a educação da criança. Desde os primeiros instantes de vida, o modelo impregna o indivíduo, através de todo o sistema de estímulos e de interditos, formulados ou não explicitamente, o que o leva, uma vez adulto, a obedecer de modo inconsciente aos princípios fundamentais da cultura. Foi a este processo que os antropólogos deram o nome de "inculturação" . A estrutura da personalidade adulta, resultante da transmissão da cultura através da educação , será em princípio adaptada ao modelo da cultura em causa. A anomalia psicológica, presente e estigmatizada em qualquer sociedade, explica-se do mesmo modo, não em termos absolutos (universais) mas em termos relativos, como sendo a consequência de  uma inadaptação do indivíduo dito "anormal" à orientação fundamental da sua cultura ( por exemplo, o Arapesh egocêntrico e agressivo ou o Mundugomor delicado e altruìsta). Existe, portanto , uma ligação estreita entre modelo cultural , método de educação e tipo de personalidade dominante.        
Por Beatriz 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Teoria da Cultura segundo a Ontognoseologia (Parte I)


 A Ontognoseologia engloba a teoria da cultura. Segundo a Ontognoseologia, numa união entre valores e as várias categorias de objectos, são criados os objectos culturais. Na cultura o estudo do objecto não é em ser, mas sim em dever ser. O homem aqui deve ser considerado na sua posição de ser criador e, se age por valores, é aquele ser que deve ser, que o seu espírito desenvolve sempre algo novo ou possui a capacidade de síntese, instaura novos objectos e formas, manipula a natureza e constrói novas formas de conhecer. Do ponto de vista da natureza, o homem é um ser e do ponto de vista da cultura, o homem deve ser. Assim, ele é o único ente que é e deve ser ao mesmo tempo.
                O homem é aquele que, sobre o mundo natural, constrói o mundo da cultura, que possui espírito, portanto, valor e é livre de inovar através das escolhas feitas e de valores adquiridos. O dever ser do espírito humano pode ser visto como intencionalidade da consciência, numa projecção de valores onde por erros e acertos da história, o homem cria a sua cultura. Na vida social, palco da cultura, determinados valores acabam por fugir do carácter pessoal, são valores que se cristalizam adquirindo carácter ontológico, exemplificados aqui como: direito à vida, igualdade perante a lei, etc. Esses valores vão-se incorporando às leis e à Ética, ao Direito, e são intitulados como Direitos Universais do Homem.
                Segundo a Ontognoseologia, entende-se por cultura toda a acção e pensamento humano que se realiza na história e que está também totalmente ligada à tradição que o espírito herdou até ao presente. Assim, aquilo que o homem recebeu dos seus antepassados em termos de reflexão e de produção material moldou os seus valores, o que liga directamente a história com a axiologia (a axiologia é o principal estudo no campo da cultura). Pode dizer-se então que a história e a ética estão correlacionadas directamente com a cultura.
                Toda a actividade humana está ligada à experiência histórica através dos tempos. Nesse sentido a história revela que os homens tentaram manter certas normas e costumes e que constituem uma tradição cultural. Esses costumes baseados em valores são valiosos. Aqueles que os homens mantiveram são bens valiosos adquiridos e há aqueles bens que ainda estamos por adquirir, esses só serão possíveis através de novas experiência histórico-culturais. Para o espírito atingir tais bens, é-lhe necessário o mínimo de liberdade. Nesse sentido, uma colisão entre bens adquiridos e valiosos envolveriam a ética e o direito. A ética a defender a liberdade criadora do espírito e o direito como o regulador da possibilidade de liberdade através da tradição e do poder. Os valores nascem da subjectividade da pessoa humana que é entendida como objecto voltado para o dever ser. A subjectividade, pela experiência cultural, entra em contacto com os outros homens e isso faz com que os valores passem pela selecção da intersubjectividade e respeito pela dignidade do próximo. Nessa união entre os indivíduos forma-se a cultura, que é a razão da vida do homem e esse é o modo mais natural de se ver a cultura humana.
                Essa cultura é composta por uma rede de bens culturais e esses bens possuem uma estrutura específica. São compostos de um ou mais valores e dividem-se em suporte e significado. O suporte pode ser material, enquanto que o significado é a parte que o material remete. Uma moeda possui um suporte de metal mas o seu valor significa algo além do próprio material.
A cultura é produzida pelos indivíduos, em cada acção ou pensamento individual, mas em consequência do grupo de indivíduos, torna-se um bem colectivo. Um traço essencial da cultura é a liberdade, tanto que o estudo da ética torna-se de grande importância para o entendimento do desenvolvimento cultural. A cultura não avançaria se não fosse a liberdade de cada indivíduo de desenvolver uma acção; claro que o indivíduo possui a liberdade de agir de forma inovadora ou tornar-se submisso ao passado da tradição herdada ou das inúmeras experiências que foi capaz de produzir antes. Mas não se deve aqui considerar o tradicional e o que está para se feito de novo como dois pontos fixos. Há uma graduação e o abandono total de valores não é possível. A procura de novos valores e bens anda de mãos juntas com o tradicional sendo esse um ponto seguro caso a nova experiência não atinja os resultados almejados.
                Todo o processo cultural, onde se funda a sociedade, acontece porque existem dois factores: um mundo da natureza e o mundo da cultura já previamente dado. Assim, a cultura transcende sempre o natural através da acção de cada indivíduo livre. Nessa acção, incluímos os elementos morais necessários ao dever ser do homem e que ao mesmo tempo o faz agir como indivíduo e como uma parte de um todo. Todo o valor faz com que as profissões que mais gostamos (como parte individual) impliquem um ganho social (colectividade). Do indivíduo para a sociedade, encontramos vários modelos ideais da pessoa humana:

“ (…) O homem teorético, dominado pelo valor da verdade; o homem económico, absorvido pela estimativa do útil; o homem estético, atraído pelo valor do belo; o homem social conduzido pelo valor do amor; o homem político, determinado pelo valor do poder; e por fim o homem religioso, embebido no valor santo”

(REALE, M. Introdução à Filosofia, 2ª ed; São Paulo: Saraiva, 1989; pág 182)

Nesses valores, vários outros se encontram numa hierarquia de subordinação valorativa. Ao unir essa hierarquia de valores com a história das civilizações conseguiremos desvendar os vários ciclos de cultura através do tempo onde cada modelo humano instaura uma cosmovisão específica. Cada civilização possui um ciclo de vida onde cada modelo humano prevalece. Assim, o tempo histórico entendido filosoficamente mostra-nos os pressupostos axiológicos de cada momento da civilização. No conhecimento civilizatório não podemos deixar de tentar entender a influência de uma civilização noutra civilização. Podemos dizer que nos dias de hoje nos encontramos num momento de grande interligação cultural e de troca de experiências.

Por Rita.